Horizontes Culturais: CNJ Lança Estratégia para Inovar no Sistema Prisional Brasileiro

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© CNJ/Divulgação

Em um movimento que busca redefinir o papel da cultura no sistema prisional brasileiro, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) lançou a estratégia Horizontes Culturais. A iniciativa, apresentada no prestigiado Teatro Municipal do Rio de Janeiro, propõe a arte como uma poderosa ferramenta de ressocialização e dignificação. O evento contou com a emocionante história de Átila, um egresso de 25 anos que, por meio da pintura, preencheu a ausência de uma foto de formatura do primário, simbolizando a busca por um futuro distinto do passado.

Uma Nova Visão para a Reabilitação e a Educação

O programa Horizontes Culturais, com previsão de atuação até 2027, visa fomentar um vasto leque de atividades culturais, educativas e artísticas em diversas linguagens, como artes plásticas, dança, música, cinema e fotografia. Sua ambição vai além das ações pontuais, culminando na criação de um Plano Nacional de Cultura para o Sistema Prisional, que incluirá um calendário anual de atividades, consolidando a cultura como um pilar contínuo na jornada de ressocialização.

O público-alvo da estratégia é abrangente, incluindo não apenas as pessoas privadas de liberdade, mas também egressos do sistema, seus familiares (como Átila), servidores penais e profissionais da cultura. A relevância dessa iniciativa é acentuada pelos dados da Secretaria Nacional de Políticas Penais, que revelam um contingente de cerca de 700 mil pessoas encarceradas no Brasil, majoritariamente homens jovens, pretos e pardos, frequentemente envolvidos em crimes relacionados ao tráfico de drogas ou patrimônio. Alarmantemente, quase um terço dessas pessoas ainda aguarda julgamento, sendo presos temporários.

A Cultura como Pilar da Dignidade e Transformação Social

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, presente no lançamento, sublinhou a cultura como um direito fundamental e uma obrigação do Estado, mesmo diante das complexas realidades sociais. Fachin enfatizou que o investimento em educação, cultura e oportunidades não é sinônimo de ingenuidade ou de fragilização da segurança pública, mas sim um meio essencial para estimular o pensamento crítico, a alteridade e a autonomia, permitindo que indivíduos sonhem com futuros além dos caminhos historicamente predeterminados. O ministro recordou que o Horizontes Culturais integra o Plano Pena Justa, um conjunto de políticas públicas que surgiu do reconhecimento, pelo próprio STF em 2023, de violações massivas de direitos no sistema prisional.

O evento de lançamento foi um palco vibrante para demonstrações do poder transformador da arte. Apresentações de balé de meninas do AfroReggae, uma competição de canto entre mulheres e pessoas LGBTQIAP+, e cenas teatrais que lançavam luz sobre as raízes da criminalidade – como a violência contra mulheres e mães, e a busca desesperada por melhores condições de vida por jovens pobres – emocionaram a plateia. Mateus de Souza Silva, de 30 anos, atualmente em regime semiaberto em Rondônia, declamou um trecho do espetáculo “Bizarrus”, no qual revive a perda do irmão aos sete anos, vítima de um atropelamento. Ele expressou como o projeto teatral, desenvolvido pela Associação Cultural e de Desenvolvimento do Apenado e Egresso, transformou sua vida, permitindo-lhe, pela primeira vez, pisar em um palco e ressignificar sua história.

A renomada autora e poeta Elisa Lucinda, também participante do evento, defendeu a visão de que o sistema prisional, quando bem direcionado, pode se tornar uma porta para a dignidade e a reconstrução do ser. Lucinda, que mantém um projeto de poesia com adolescentes infratores, argumentou que, para muitos, a prisão pode oferecer uma experiência de reconstrução pessoal, especialmente para aqueles que, por limitações sociais e econômicas, se veem sem outras opções ou acostumados a serem maltratados.

Vozes que Rompem Barreiras e Inspiram o Amanhã

A jornada de Átila ilustra perfeitamente o impacto da arte. Sua pintura, retratando um menino negro de beca e sorriso, com grades ao fundo, simboliza não apenas a importância da educação, mas também a superação. Cursando Belas Artes na Universidade Federal do Rio de Janeiro, ele encontrou na expressão artística uma via para reconciliar-se com o passado e vislumbrar um futuro promissor, transcendendo as barreiras que antes o limitavam.

Similarmente, a experiência de Mateus de Souza Silva no teatro demonstra a capacidade da arte de reescrever destinos. Ele, que nunca havia estado em uma sala de espetáculos antes do projeto, hoje é um pai que cria sua filha de 7 anos, com a convicção de que sua história foi profundamente transformada. Essas narrativas pessoais reforçam o propósito do Horizontes Culturais: oferecer caminhos de esperança e reconstrução para aqueles que, dentro do sistema prisional, buscam uma nova perspectiva de vida.

Um Horizonte de Oportunidades e Humanização

O lançamento do Horizontes Culturais pelo CNJ marca um passo significativo na busca por um sistema prisional mais humano e eficaz. Ao reconhecer o poder transformador da arte e da educação, a iniciativa não só oferece oportunidades concretas de ressocialização, mas também reafirma o compromisso com a garantia dos direitos humanos, mesmo nos contextos mais desafiadores. É um convite à sociedade para enxergar o sistema prisional não apenas como um local de punição, mas como um espaço de potencial para a dignidade, a reconstrução de vidas e a construção de um futuro mais justo.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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