O cenário de degradação ambiental em territórios indígenas tem provocado um impacto direto e alarmante na produção de cocares, peças fundamentais para a identidade e rituais dos povos originários. Artesãos relatam uma diminuição significativa na quantidade e diversidade de aves, essenciais para a obtenção das penas utilizadas na confecção dessas insígnias ancestrais.
O Impacto Direto da Degradação Ambiental na Fauna
O desmatamento, as queimadas e o uso indiscriminado de agrotóxicos, frequentemente associados a ações de grileiros e invasores não-indígenas, são apontados pelas lideranças indígenas como os principais responsáveis pela escassez de aves. Tapurumã Pataxó, artesão de 32 anos da Aldeia Barra Velha, em Porto Seguro (BA), expressou sua preocupação durante o Acampamento Terra Livre em Brasília. Ele testemunha a redução de aves que antes povoavam o céu de seu território, afetando diretamente a disponibilidade de matérias-primas para os cocares.
Tapurumã, que aprendeu a arte com seus avós, lamenta a destruição que se estende por todo o país, comparando-a à exploração iniciada com a chegada dos portugueses. A diminuição de espécies como a arara, que ele via em maior número na infância, é um reflexo visível das queimadas criminosas e da destruição ambiental. Apesar dos desafios, sua comunidade busca reverter esse quadro através de projetos ambientais focados na reinserção das aves no ecossistema.
Alternativas e a Triste Realidade da Escassez
A escassez de penas tem levado artesãos a buscar alternativas incomuns. Ahnã Pataxó, 45 anos, da Aldeia Velha, também em Porto Seguro, revela que tem sido necessário recorrer a zoológicos para obter as penas de que necessita. Essa medida, segundo ela, é um reflexo da tristeza em ver animais que deveriam ser livres confinados em áreas restritas devido à perda de seus habitats naturais e à falta de consciência ambiental humana.
A artesã sente falta de aves como o gavião real, a arara e até mesmo o papagaio, cujas populações estão cada vez mais raras. Ela enfatiza a urgência de promover mais ações de conscientização ambiental para reverter essa tendência.
Mudanças Climáticas e o Comportamento das Aves
Além da perda direta de habitat, as mudanças climáticas também alteram o comportamento das aves, impactando sua presença e disponibilidade. Keno Fulni-ô, 40 anos, da aldeia próxima a Águas Belas (PE), onde aves como o gavião, caracará, garça e anu são comuns, observa que as alterações climáticas têm modificado os padrões migratórios e de reprodução dessas espécies. Essa imprevisibilidade climática adiciona outra camada de complexidade ao desafio de manter a tradição.
O Significado Profundo do Cocar: Identidade, Proteção e União
O cocar transcende a mera peça artesanal; ele carrega consigo um profundo significado simbólico para os povos indígenas. Tapurumã Pataxó explica que o cocar representa a identidade, a resistência e a proteção de seu povo, conferindo força para a luta por direitos, educação e demarcação territorial. Ele ressalta a importância do respeito por parte de não-indígenas que adquirem a peça, sugerindo que ela seja preservada como uma obra de arte, e não utilizada de forma inadequada.
Keno Fulni-ô também apela por um uso respeitoso do cocar, alertando contra o uso em contextos que desrespeitem sua sacralidade, como em festas ou consumo de álcool. Ahnã Pataxó complementa, explicando que o cocar é um símbolo de aliança, utilizado em casamentos tradicionais em substituição a alianças de metal. A costura minuciosa das penas representa a união e a coesão de todo o povo.
A Continuidade da Tradição Através da União e Habilidade
A transmissão do conhecimento para a confecção de cocares é um ato de união e perpetuação cultural. Aalôa, um jovem de 21 anos da etnia Fulni-ô, exemplifica essa continuidade. Ele aprendeu a arte com 14 anos, demonstrando grande habilidade e atenção aos detalhes. O processo de limpar, tingir e costurar cada pena individualmente, como ele demonstrava em um cocar de papagaio, é uma atividade relaxante e terapêutica, que o conecta com suas raízes e o faz sentir como a voz de seu povo e parte de uma grande família.
