Legislação Protetiva da Mulher: O Desafio Geracional da Transformação Social

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© Paulo Pinto/Agência Brasil

O Brasil se destaca no cenário internacional por possuir uma das legislações mais avançadas no enfrentamento à violência de gênero. Leis como a Maria da Penha e a do Feminicídio são amplamente reconhecidas como marcos fundamentais na proteção da mulher. Contudo, apesar do robusto arcabouço legal, especialistas alertam que a verdadeira transformação social decorrente dessas normas é um processo lento, que demanda tempo e um profundo engajamento cultural, estendendo-se por gerações.

A legislação brasileira para combater a violência contra a mulher é um pilar essencial na busca por equidade e segurança. A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), que em 2026 completará 20 anos, e a Lei do Feminicídio (Lei nº 13.104/2015), que atingirá uma década, são exemplos notáveis. Elas estabeleceram mecanismos de proteção e tipificaram crimes específicos, sinalizando o compromisso do Estado em coibir agressões e mortes motivadas pelo gênero. Essas leis não apenas oferecem amparo legal, mas também atuam como ferramentas de conscientização e empoderamento feminino.

A Perspectiva do Tempo: O Longo Caminho da Mudança Cultural

Apesar da importância inquestionável dessas leis, a professora de Direito da Universidade de Brasília (UnB) e especialista em gênero, Janaína Penalva, ressalta que ainda é prematuro mensurar o impacto total de uma legislação protetiva tão recente na sociedade. Segundo ela, os efeitos mais profundos demorarão a ser sentidos, pois a lei, por si só, não é e nunca será suficiente para erradicar a violência. Essa visão é corroborada pela pesquisadora Valeska Zanello, que estima que a transformação real da sociedade, impulsionada por essas normativas, pode levar entre 30 a 50 anos. Estudos transculturais indicam que são necessárias pelo menos três gerações para que modificações significativas ocorram nas configurações emocionais e comportamentais de uma sociedade, evidenciando o desafio geracional que se impõe.

Avanços Legislativos Recentes e a Ampliação da Proteção

O arcabouço legal brasileiro continua a evoluir, incorporando novas ferramentas para a proteção feminina. Recentemente, foram sancionadas leis que reforçam essa rede de segurança. A Lei 15.383/2026 estabelece o monitoramento eletrônico do agressor como medida protetiva de urgência em situações de risco iminente à vida ou integridade da mulher. Além disso, a vítima poderá utilizar um dispositivo de segurança para alertar sobre a aproximação do agressor, garantindo uma resposta mais rápida e eficaz.

Outro avanço crucial é a Lei nº 15.384/2026, que tipifica o crime de vicaricídio. Este crime hediondo, que consiste no assassinato de filhos ou outros parentes como forma de punir, controlar ou causar sofrimento à mulher, agora prevê pena de 20 a 40 anos em regime fechado. A legislação ainda estabelece o aumento da pena em um terço até a metade se o crime for cometido na presença da mulher, contra criança, adolescente, idoso ou pessoa com deficiência, ou em descumprimento de medida protetiva. Adicionalmente, leis como o Marco Civil da Internet, a Lei Carolina Dieckmann e a que criminaliza o stalking (perseguição insistente, física ou virtual) são fundamentais no combate à crescente violência digital, expandindo a proteção para o ambiente virtual.

A Dinâmica Social da Violência e a Urgência da Prevenção

O psicólogo Flávio Urra, que atua na ressocialização de agressores, enfatiza que as mudanças legislativas são fruto da pressão e da luta incansável do movimento de mulheres, impulsionando transformações em teorias e comportamentos. Essa mobilização tem gerado um aumento nas denúncias: em 2025, o Ligue 180 registrou mais de 155 mil denúncias de violência contra a mulher entre janeiro e outubro, a maioria feita pelas próprias vítimas. Urra observa que a tolerância das mulheres a atitudes machistas diminuiu, levando muitos homens à denúncia, embora muitos ainda não reconheçam seus atos como crimes.

No entanto, o consultor Felipe Requião, focado no engajamento masculino pela equidade de gênero, aponta que, apesar do reconhecimento do arcabouço legal, os atos de violência e a responsabilização masculina ainda são minimizados culturalmente. Ele critica a persistência de discursos que legitimam a violência em diversos campos da sociedade e a carência de ações preventivas eficazes. Requião argumenta que a atuação ocorre predominantemente após a consumação da violência, em vez de se focar na interrupção do ciclo nas primeiras denúncias. Para ele, o cerne da questão não é a falta de leis, mas a necessidade premente de uma transformação cultural profunda que desconstrua a lógica da violência e promova a equidade de gênero desde suas bases.

Conclusão: Um Compromisso Contínuo com a Mudança

A jornada para erradicar a violência contra a mulher no Brasil é complexa e multifacetada. Embora o país possua uma legislação exemplar, o desafio reside na transposição dessas normas para uma realidade social onde a violência ainda é minimizada e perpetuada por padrões culturais arraigados. A evolução legislativa, com a inclusão de novas medidas protetivas e a criminalização de formas específicas de violência, é um passo crucial. Contudo, a verdadeira vitória virá com a conscientização coletiva, a desconstrução de discursos machistas, a efetiva responsabilização dos agressores e, sobretudo, o investimento em ações preventivas que interrompam o ciclo da violência antes que ele se concretize. Este é um compromisso contínuo que exige o engajamento de toda a sociedade, visando construir um futuro onde todas as mulheres possam viver com segurança e dignidade.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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