O período da ditadura militar no Brasil (1964-1985) revela cada vez mais seus elos com o empresariado nacional e internacional. Uma investigação recente, desdobrada a partir do segundo episódio da temporada atual do podcast "Perdas e Danos", intitulado "Caixa", lança luz sobre as conexões da gigante suíça Nestlé com os mecanismos de repressão do regime.
Contribuições para o IPES: Um Apoio Velado ao Golpe
A multinacional alimentícia, apesar de sua atuação discreta, deixou rastros de seu apoio ao regime. Documentos arquivados no Arquivo Nacional comprovam que a Nestlé, por meio de seu executivo Gualter Mano, realizou contribuições financeiras para o IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais). Este think tank, composto por empresários e militares, desempenhou um papel crucial na articulação e preparação do golpe de 1964, consolidando um ambiente favorável à tomada de poder.
A Conexão com a OBAN: Financiamento Direto à Tortura
As evidências de envolvimento da Nestlé com o regime não se limitam ao IPES. Outros indícios apontam para uma ligação direta da empresa com a OBAN (Operação Bandeirantes), o principal centro de tortura e morte sob a ditadura militar. A OBAN funcionou como um laboratório para a posterior implantação dos DOI-Codi em todo o país. A participação da Nestlé neste esquema está detalhada na página 330 do Volume 2 do relatório final da Comissão Nacional da Verdade.
O relatório menciona um evento significativo: um banquete promovido pelo então ministro Delfim Netto no Clube São Paulo. Durante essa reunião, banqueiros como Amador Aguiar (Bradesco) e Gastão Eduardo de Bueno Vidigal (Banco Mercantil de São Paulo), entre outros, doaram expressivas quantias em dólares para reforçar o caixa da OBAN. Multinacionais como a Nestlé, General Eletric, Mercedes Benz, Siemens e Light também figuram entre as colaboradoras financeiras do aparato repressivo.
Oswaldo Ballarin: O Executivo com Trânsito Livre na Repressão
Um nome emerge das investigações como um elo particularmente forte entre a Nestlé e o regime: Oswaldo Ballarin. Pouco mais de um ano após o jantar que garantiu o financiamento da OBAN, Ballarin, então representante da Nestlé, foi homenageado pelo chefe do Estado-Maior do II Exército, general Ernani Ayrosa, no final de 1970. A homenagem reconhecia o apoio empresarial à repressão, evidenciando a influência de Ballarin junto às cúpulas militares.
Carreira e Influência na Nestlé e na Brown Boveri
Ballarin construiu uma sólida carreira na Nestlé, ascendendo ao cargo de presidente executivo entre 1971 e 1978. Sua influência na companhia era tamanha que ele foi escolhido para representar a multinacional em uma audiência pública no Senado dos Estados Unidos em 1978, convocada para investigar as estratégicas de marketing agressivas da empresa na promoção de leite em pó para bebês. Paralelamente à sua gestão na Nestlé, Ballarin ocupou a presidência da Brown Boveri (atual ABB) entre 1971 e 1979, outra empresa suíça com forte atuação em grandes obras no Brasil.
A Brown Boveri e o Consórcio de Itaipu
A Brown Boveri esteve envolvida em projetos de grande porte, como a construção da Usina de Itaipu, a maior obra de engenharia da ditadura. A empresa integrou o CIEM (Consórcio Itaipu Eletromecânico), um grupo de empresas europeias, liderado pela Siemens, responsável pelo fornecimento das turbinas da usina. O consórcio, aliás, foi alvo de denúncias de corrupção, pagamento de propinas e de burlar regras contratuais, como a nacionalização da produção.
O Vínculo com a CIA: Vigilância e Financiamento à Tortura
Os laços mais profundos de Oswaldo Ballarin com os porões da ditadura militar foram desvendados em sua atuação como executivo do setor elétrico. Ballarin é acusado de ter contratado os serviços de uma agência de relações públicas de fachada, a CIA (Consultores Industriais Associados). Curiosamente, a agência compartilhava a mesma sigla do serviço de inteligência dos Estados Unidos, mas seu objetivo real era a vigilância de trabalhadores, a perseguição de opositores e a organização de campanhas para arrecadar fundos destinados ao aparelhamento dos centros de tortura do Estado.
A descoberta dessa conexão foi fruto do trabalho da pesquisadora Gabriella Lima, da Universidade de Lausanne, que acessou os arquivos da Brown Boveri na Suíça. As investigações revelam que o CIEM, do qual a Brown Boveri fazia parte, destinava uma porcentagem das encomendas para um cartel de eletricidade, sugerindo um esquema complexo de financiamento e interesses escusos.
