Recentemente, importantes mudanças foram introduzidas nas diretrizes sobre o tratamento de doenças da tireoide em gestantes. As novas orientações, que surgiram a partir de três estudos robustos, indicam que mulheres grávidas com anticorpos positivos contra a tireoide (anti-TPO) e com funcionamento normal da glândula não precisam mais utilizar hormônios sintéticos como a levotiroxina para fins preventivos, pois isso não demonstrou reduzir os riscos de aborto ou parto prematuro.
Novas Recomendações da Sociedade Brasileira
As diretrizes atualizadas foram divulgadas pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, em conjunto com a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Essa atualização reflete a diretriz publicada pela Associação Americana da Tireoide, que ocorreu em junho de 2023, quase uma década após a última revisão em 2017. O anúncio das novas recomendações foi feito durante o 37º Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia, realizado no Rio de Janeiro.
Diretrizes para Tratamento de Gestantes
Com as novas orientações, gestantes que apresentarem anticorpos positivos contra a tireoide, mas que mantiverem níveis normais de T4, não devem receber o tratamento hormonal com levotiroxina. O monitoramento da função tireoidiana permanece essencial, visto que há evidências de um risco elevado para o desenvolvimento de hipotireoidismo durante a gestação.
Importância do Monitoramento Contínuo
De acordo com Cleo Mesa Júnior, subcoordenador do Departamento de Tireoide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, a presença de anticorpos positivos indica apenas uma predisposição a alterações na tireoide. Se os níveis de TSH e T4 livre estiverem normais, a mulher é considerada eutireoidiana, e a administração de levotiroxina não traz benefícios. Para gestantes com histórico de hipotireoidismo, a orientação permanece a mesma: aumentar em cerca de 30% a dose do hormônio assim que a gravidez for confirmada.
Estratégias de Rastreamento
O Brasil continuará a realizar o rastreamento precoce de todas as gestantes, desde o início da gravidez, para identificar aquelas que realmente necessitam de tratamento. Essa abordagem contrasta com a nova diretriz da ATA, que propõe um rastreamento seletivo apenas para mulheres com fatores de risco, como idade avançada, obesidade e número elevado de gestações anteriores. Especialistas afirmam que a triagem seletiva pode falhar em identificar mulheres que precisam de atenção, mas que não apresentam esses fatores de risco.
Hipotireoidismo Subclínico e Suas Novas Diretrizes
Outra alteração significativa nas diretrizes é a abordagem do hipotireoidismo subclínico, caracterizado por um TSH elevado, enquanto o T4 livre permanece normal. A partir de agora, o tratamento deve ser iniciado apenas no primeiro trimestre da gestação, caso o TSH esteja entre 4,0 e 10 mUI/L. A importância desse período inicial é ressaltada, pois é quando o desenvolvimento fetal é mais dependente dos hormônios tireoidianos da mãe. Se o problema for detectado mais tarde, apenas o acompanhamento será necessário, a menos que o TSH ultrapasse 10 mUI/L.
Considerações Finais
Essas novas diretrizes visam não apenas evitar o uso excessivo de medicamentos desnecessários, mas também garantir que as gestantes recebam o tratamento adequado conforme suas necessidades individuais. A abordagem mais cautelosa e personalizada reflete um avanço significativo no cuidado da saúde materno-infantil, assegurando que todas as mulheres tenham acesso a um manejo eficaz e seguro das condições tireoidianas durante a gestação.
