O México se prepara para uma transformação histórica em seu sistema de saúde, com a implementação de um modelo universal, inspirado no Sistema Único de Saúde (SUS) do Brasil, a partir de janeiro de 2027. Esta ambiciosa iniciativa visa garantir acesso equitativo à saúde para toda a população, consolidando uma rede de atendimento mais integrada e eficiente. A primeira etapa crucial desse processo, focada no cadastramento de usuários, teve início nesta segunda-feira, dia 13 de maio, abrangendo inicialmente idosos com mais de 85 anos e seus respectivos acompanhantes ou cuidadores.
Pilares e Alcance do Novo Serviço Universal de Saúde
A espinha dorsal do Serviço Universal de Saúde mexicano reside na unificação das bases de dados dos pacientes. Este mecanismo prioritário permitirá aos profissionais de saúde acessar prontuários eletrônicos já existentes, otimizando o atendimento e eliminando a necessidade de repetir exames ou coletar informações básicas a cada consulta. Complementarmente, um aplicativo digital será desenvolvido para centralizar dados, incluindo resultados de exames laboratoriais, facilitando o acompanhamento da saúde dos cidadãos.
O governo mexicano prevê investimentos substanciais para assegurar o abastecimento contínuo de medicamentos, a plena operação de unidades de atendimento e a disponibilidade de salas de cirurgia. O foco inicial do sistema abrangerá áreas vitais como atendimento emergencial, gravidez de alto risco, tratamento de infartos e doenças cerebrais, combate ao câncer de mama, consultas preventivas, manejo de quadros graves, além de serviços essenciais em nutrição, incentivo a exercícios físicos e saúde mental. O plano também contempla a continuidade de tratamentos para diversas condições.
Em uma fase posterior, a partir de 2028, a expansão do modelo incluirá o intercâmbio de serviços especializados. Isso garantirá um suprimento mais robusto de remédios, acesso facilitado a consultas com médicos especialistas e atenção primária dedicada a pacientes com doenças crônico-degenerativas, como Alzheimer, osteoartrite e artrite reumatoide, consolidando uma abordagem de cuidado integral e de longo prazo.
A Jornada Inicial: Cadastramento e Nova Identificação
A fase de cadastramento para o primeiro grupo de usuários, iniciada em 13 de maio e prevista para ser concluída até 30 de abril do próximo ano, é um passo fundamental. Após o registro, os beneficiários receberão, em aproximadamente seis semanas, um documento de identificação atrelado ao novo sistema. Este documento, emitido pela Secretaria de Bem-Estar, substituirá as carteiras de identificação expedidas por instituições de seguridade social já existentes no país, como o Instituto Mexicano do Seguro Social (IMSS), o Instituto de Seguridade e Serviços Sociais dos Trabalhadores do Estado (ISSSTE) e a Petróleos Mexicanos (Pemex), que atualmente operam com orçamentos próprios e contribuições de governo, empregadores e funcionários.
A implementação desta nova identificação é crucial para unificar o acesso à saúde, que hoje é fragmentado entre diversas entidades. Atualmente, trabalhadores autônomos, desempregados e aqueles fora do mercado formal dependem de serviços oferecidos pela Secretaria de Saúde (SSa), Serviços Estaduais de Saúde (Sesa) e pelo programa IMSS-Oportunidades (IMSS-O), além de uma parcela da população que conta com planos de saúde privados. A iniciativa busca, portanto, criar uma base universal que transcenda essas divisões.
Neste momento inicial, o credenciamento será realizado em 24 dos 31 estados mexicanos, com planos de expansão gradual. Equipes de registro percorrerão 47 municípios, incluindo as 16 demarcações territoriais que compõem a Cidade do México, com a expectativa de alcançar cerca de 2 milhões de pessoas através de 2.059 módulos de atendimento. Para atender à demanda, o governo disponibilizará 2 mil centros médicos, considerados suficientes para as necessidades iniciais e futuras expansões. A Secretaria de Bem-Estar será responsável por divulgar o calendário de cadastramento para os demais grupos populacionais. A presidenta Claudia Sheinbaum Pardo, ao anunciar o programa, reforçou o compromisso: “Continuaremos informando todas as semanas, para que as pessoas saibam onde estão os módulos e como vai o cadastramento. É o melhor modelo que podemos seguir para garantir o acesso à saúde.”
Contexto Demográfico e Desafios da Saúde no México
A decisão de reestruturar o sistema de saúde mexicano reflete a evolução demográfica e as necessidades crescentes da população. Segundo dados da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), o México registrou um aumento populacional de 31% entre 2000 e 2023, atingindo 128 milhões de pessoas, com a maioria sendo mulheres. A expectativa de vida média no país é de 75 anos, e a população soma, em média, 9,7 anos de estudo.
A relevância do acesso à internet, que atinge 72% dos habitantes, é um fator crucial para a digitalização proposta pelo novo sistema. No entanto, o país ainda enfrenta desafios na proporção de profissionais de saúde: em 2020, havia apenas 0,11 dentistas a cada 10 mil pessoas, e em 2021, a proporção de médicos era de 26,09 para cada 10 mil habitantes. Esses números sublinham a importância de um sistema robusto e bem planejado para atender às demandas de uma população em crescimento e com necessidades de saúde cada vez mais complexas.
A implementação do Serviço Universal de Saúde no México representa um marco significativo, prometendo uma era de maior equidade e eficiência no acesso à saúde pública. Ao adotar um modelo que prioriza a integração de dados e a expansão de serviços, o país busca construir um futuro onde o bem-estar e o cuidado médico sejam direitos garantidos a todos os seus cidadãos, pavimentando o caminho para uma nação mais saudável e resiliente.
