Um marco de inovação sustentável foi inaugurado em abril na comunidade ribeirinha de Santa Helena do Inglês, em Iranduba (AM). O projeto "Gelo Caboclo" é uma fábrica de gelo movida inteiramente por energia solar, prometendo transformar a logística e a economia local, além de reduzir o impacto ambiental na região amazônica.
Tecnologia e Capacidade: O Coração do Gelo Caboclo
O complexo "Gelo Caboclo" possui uma impressionante capacidade de produção de uma tonelada de gelo diariamente e um armazenamento que pode chegar a 20 toneladas. A infraestrutura é completa, incluindo um poço artesiano que garante um suprimento exclusivo de água potável, sem afetar o consumo da comunidade. A geração de energia é assegurada por uma usina fotovoltaica equipada com baterias de lítio, projetada para garantir uma operação contínua e ininterrupta, mesmo diante de variações climáticas.
Autonomia e Prosperidade para Famílias Ribeirinhas
Para Nelson Brito, pescador de terceira geração e figura influente na comunidade, a fábrica representa um divisor de águas. "O Gelo Caboclo" confere autonomia a mais de 30 famílias, que antes dependiam da compra de gelo em Manaus, um processo oneroso e logisticamente complicado. Essa nova realidade impacta diretamente a subsistência, que se baseia fortemente na pesca e no turismo, atividades que agora ganham um suporte essencial.
A aquisição de gelo em Manaus implicava uma viagem de cinco horas, gerando custos adicionais com combustível, mão de obra e perdas significativas pelo derretimento durante o transporte. A necessidade de comprar grandes quantidades para garantir a conservação do pescado, muitas vezes resultando em perdas financeiras caso a pesca não fosse produtiva, era um risco constante para os pescadores.
Um Esforço Colaborativo para a Sustentabilidade
A concretização do projeto "Gelo Caboclo" foi resultado de uma força-tarefa que uniu organizações sociais, o setor privado, governos e a própria comunidade. Essa colaboração foi fundamental para solucionar um problema crônico enfrentado pela maioria das comunidades ribeirinhas da Amazônia que vivem da pesca: a dificuldade em manter o pescado fresco desde o rio até o consumidor final.
O Papel das Organizações e do Investimento Privado
A iniciativa partiu da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), que articulou o Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), responsável pela gestão do Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio), uma política pública da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa). O investimento principal veio da empresa Positivo, que aportou R$ 1,3 milhão em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) em troca de benefícios fiscais. Complementarmente, a UCB Power contribuiu com R$ 200 mil em baterias, totalizando um investimento de R$ 1,5 milhão.
Gestão Comunitária e Novos Horizontes Econômicos
A localização do projeto em uma Unidade de Desenvolvimento Sustentável facilitou o licenciamento, com a assessoria da FAS. Após a construção, a fábrica foi entregue à gestão comunitária. A FAS, através de sua superintendente-geral adjunta, Valcléia Lima, destacou a importância de capacitar os gestores para garantir a sustentabilidade econômica do empreendimento. A comunidade, por meio de um processo seletivo, escolheu Demétrio Júnior, irmão de Nelson e também pescador, para gerir o negócio.
Demétrio Júnior vê no "Gelo Caboclo" uma oportunidade de prosperidade para si e para a comunidade. Ele explica que a fábrica permite que os pescadores priorizem a busca pelo pescado e adquiram o gelo apenas após a captura, eliminando o risco de despesas desnecessárias. A expectativa é que a fábrica atenda a 70% da demanda dos pescadores durante a temporada, com os 30% restantes supridos por compras complementares em Manaus.
O impacto econômico se estende para além da pesca. O turismo e a agricultura familiar também se beneficiarão, utilizando o gelo para a conservação de seus produtos. Para garantir a sustentabilidade financeira e cobrir os custos de manutenção da usina, do poço e dos equipamentos, Demétrio Júnior já planeja diversificar as fontes de receita, incluindo a venda de mantimentos para os pescadores, agregando ainda mais valor ao comércio local.
Um Legado de Sustentabilidade Ambiental e Social
O projeto "Gelo Caboclo" não apenas otimiza a cadeia produtiva da pesca artesanal, mas também contribui significativamente para a redução das emissões de gases de efeito estufa. Ao utilizar energia solar, a fábrica minimiza o uso de combustíveis fósseis, promovendo um futuro mais limpo e sustentável para a região amazônica e suas comunidades.
