A recente decisão dos Estados Unidos de impor uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, a partir de 22 de outubro, gerou polêmica e levantou questões sobre a relação entre a legislação brasileira e as gigantes da tecnologia, conhecidas como big techs. Especialistas afirmam que essa medida é uma distorção dos fatos e serve como um pretexto para penalizar o Brasil.
Distorções e Justificativas do Tarifaço
Pesquisadores ouvidos pela Agência Brasil criticam a narrativa dos EUA, que alega que a legislação brasileira representa uma ameaça à liberdade de expressão. O professor Paulo Rená, do Instituto de Referência em Internet e Sociedade (Iris), ressalta que a falta de regras adequadas é que efetivamente compromete essa liberdade, permitindo a disseminação de discursos de ódio e desinformação.
A Crítica à Interferência Externa
O sociólogo Sérgio Amadeu, da Universidade Federal do ABC, considera a postura do governo Trump como truculenta. Ele argumenta que as alegações do Escritório do Representante Comercial da Casa Branca (USTR) sobre a Justiça brasileira carecem de fundamento. O relatório menciona ordens judiciais que exigem das plataformas digitais a remoção de conteúdos, mas ignora os contextos legais que sustentam essas decisões.
Comparações com a Europa
Amadeu também destaca que a Europa possui uma estrutura de regulamentação que permite maior responsabilização das big techs. Segundo ele, as empresas precisam prestar contas à sociedade europeia, ao contrário do que ocorre no Brasil, onde a falta de fiscalização pode levar a abusos. Isso, segundo o sociólogo, contribui para um cenário onde as plataformas exercem controle significativo sobre o conteúdo acessado pelos usuários.
O Papel do Poder Público
O professor Amadeu enfatiza a importância de um papel ativo do governo na criação de legislações que protejam a democracia e coíbam a proliferação de crimes online. Ele critica a tendência das corporações de se alinharem com interesses políticos estrangeiros, sugerindo que isso pode levar a um 'tecnofascismo' no Brasil, onde as big techs operam sem supervisão adequada.
As Consequências da Regulação
Humberto Ribeiro, diretor do Sleeping Giants Brasil, observa que a imposição do tarifaço não é uma surpresa, considerando as mudanças nas diretrizes das big techs desde a eleição de Trump. Ele acredita que o Brasil se tornou um alvo estratégico para os EUA, que visam desestimular a regulação de plataformas digitais em outros países da América Latina, evitando que sigam o mesmo caminho.
Geopolítica e Corrida Tecnológica
Alexandre Gonzalez, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), argumenta que as ações dos EUA estão intimamente ligadas à competição global com a China, especialmente no que diz respeito à inteligência artificial. Ele sugere que o verdadeiro foco de Washington é proteger seus interesses corporativos sob a justificativa de promover a concorrência.
Considerações Finais
A imposição do tarifaço pelos Estados Unidos levanta questões complexas sobre a soberania digital e a regulação das big techs no Brasil. Enquanto especialistas criticam a narrativa americana e defendem a necessidade de um arcabouço legal mais robusto, a situação evidencia a luta entre interesses corporativos e a proteção dos direitos dos cidadãos na era digital.
