A desinformação é um problema crescente no Brasil, exacerbado pela falta de acesso à internet e pela qualidade precária das conexões. Uma pesquisa recente, intitulada 'Dos territórios indígenas às periferias: retratos da desinformação e do consumo de notícias no Brasil', revelou que essas barreiras dificultam a capacidade das pessoas de se manterem informadas. O estudo, divulgado pela Coalizão de Mídias Periféricas, Faveladas, Quilombolas e Indígenas, foi realizado em três cidades brasileiras e trouxe à tona questões cruciais sobre a comunicação e o consumo de notícias.
A Realidade da Conexão e Informação
Um dos principais achados da pesquisa é que a falta de conexão à internet é um obstáculo significativo para cerca de 25% dos entrevistados. Além disso, a dificuldade em distinguir informações verdadeiras de falsas é uma preocupação para 17% dos participantes, que também apontaram a falta de tempo como um impedimento para filtrar conteúdos confiáveis. Muitas pessoas, especialmente mulheres com rotinas exaustivas, sentem-se sobrecarregadas e têm pouco tempo para refletir sobre as informações que recebem.
O Papel do Jornalismo Local
O estudo destaca a importância do jornalismo local, que se mostra mais confiável e compreensivo em relação às realidades das comunidades. Thais Siqueira, coordenadora da pesquisa, enfatiza que o jornalismo deve evoluir de um modelo que apenas 'fala' para um que 'escuta' e constrói em conjunto com as comunidades. Os entrevistados revelaram que buscam notícias principalmente para compreender o que acontece em seus bairros, tomar decisões e compartilhar informações com amigos e familiares.
Diferenças Regionais no Consumo de Notícias
A pesquisa também revelou variações significativas no consumo de notícias entre as diferentes regiões do Brasil. Em cidades como Recife e São Paulo, há uma diversificação maior nas plataformas utilizadas, incluindo sites de notícias e redes sociais. Por outro lado, em Santarém, a maioria das pessoas recorre a aplicativos como WhatsApp, além de mídias tradicionais como TV e rádio. Essa realidade evidencia a continuidade da relevância dos meios tradicionais em áreas onde o acesso digital é limitado.
A Necessidade de Combater a Desinformação
Apesar da confiança depositada em meios tradicionais de comunicação, a pesquisa alerta que o acesso a esses veículos não é suficiente para erradicar a desinformação. A produção de conteúdos que respeitem os saberes locais e as diversas formas de expressão é essencial. Thais Siqueira reforça que a confiança nas informações passa por relações e experiências locais, sendo crucial que o jornalismo atue em sintonia com essas dinâmicas.
Recomendações para um Futuro Melhor
O estudo propõe 16 recomendações para fortalecer o jornalismo e enfrentar a desinformação, incluindo a necessidade de reconhecer e financiar sistemas de comunicação locais. Além disso, sugere a produção de conteúdos em formatos acessíveis, como áudios e vídeos curtos, que possam ser facilmente compartilhados, principalmente entre aqueles que têm acesso limitado à internet.
Metodologia e Colaboração
Para realizar a pesquisa, a Coalizão de Mídias capacitou uma ampla gama de pesquisadores e comunicadores locais. Em Recife, por exemplo, a participação de artistas de rua e jovens mães foi fundamental para a aplicação dos questionários. Os dados coletados foram analisados em colaboração com o Observatório Ibira30 e a Fundação Tide Setubal, reforçando a importância de um esforço conjunto para abordar a desinformação.
Conclusão
A pesquisa da Coalizão de Mídias evidencia que o combate à desinformação no Brasil requer uma abordagem multifacetada, que vai além da simples checagem de fatos. É fundamental reconhecer as especificidades locais e valorizar a produção de conteúdos que dialoguem com as realidades das comunidades. Somente assim será possível construir uma sociedade mais informada e resiliente frente aos desafios da desinformação.
