A regulamentação do uso de cannabis medicinal no Brasil tem avançado, mas ainda existem lacunas que precisam ser abordadas. Associações de pacientes reconhecem os progressos, mas destacam a urgência em definir questões relacionadas ao cultivo, controle sanitário e a inserção da planta na agricultura familiar.
Debates e Inseguranças no Setor
O tema foi amplamente discutido durante a 2ª edição da feira Febre de Arte, realizada em Fortaleza. Durante o evento, representantes de associações expressaram preocupações em relação ao clima de incerteza que ainda permeia o setor. Casos recentes de apreensões de encomendas e destruições de plantações destinadas a medicamentos foram citados como exemplos de desafios enfrentados.
Implicações da Resolução da Anvisa
A falta de avanços concretos desde a promulgação da Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 1.014 da Anvisa tem sido um entrave significativo. Durante o II Encontro Nacional Nordestino de Associações Canábicas, Maurício Gomes, diretor jurídico da Associação Canábica Florescer, apontou que a responsabilidade das questões pendentes foi transferida para a Anvisa, enquanto o setor enfrenta a pressão das autoridades policiais.
Desafios da Vigilância Sanitária
Antônio Carlos Araújo Fraga, técnico da coordenadoria de vigilância sanitária do Ceará, destacou a relutância de alguns colegas em realizar fiscalizações adequadas, o que contribui para a insegurança do setor. Ele ressaltou a ausência de orientações práticas, resultando em um impasse sobre como proceder diante da falta de regulamentação.
Participação Social e Normas da Anvisa
A Anvisa, por sua vez, defende que garantiu a participação social no processo de elaboração das resoluções, com um total de 29 consultas realizadas a associações de pacientes e à comunidade científica. A agência também analisou experiências internacionais e considerou 47 trabalhos científicos de 139 pesquisadores, incluindo 41 do Brasil.
Iniciativas de Pesquisa e Educação
A WeCann Academy, uma rede internacional de especialistas em cannabis, destacou-se por organizar o WeCann Summit, previsto para 2024 em Campinas, e por reunir quase 200 pesquisas no Mapa de Evidências da Cannabis Medicinal. No entanto, a comunidade canábica levantou questionamentos sobre os critérios de seleção dos dados compilados.
Aspectos a Serem Regulamentados
Críticas foram direcionadas à falta de clareza em vários aspectos da regulamentação, como o modelo definitivo de cultivo, os critérios técnicos para cultivo e os limites de THC. Especialistas presentes no evento enfatizaram a dificuldade das autoridades em estabelecer normas que atendam a todas as organizações envolvidas no universo canábico.
A Importância do Controle na Produção
Akemy Viana Pinheiro, da Acura, defendeu que as associações não têm interesse em evitar a supervisão de suas atividades. Ela argumentou que a colaboração entre farmacêuticos e agrônomos é crucial para garantir um controle rigoroso da produção e distribuição de medicamentos, ressaltando a importância de atender às exigências técnicas e de qualidade.
Agricultura Familiar e Condições de Trabalho
O Instituto Tricomas, no Maranhão, busca promover o acesso a medicamentos à base de cannabis por meio de práticas de agricultura familiar regenerativa. Durante os debates, também foram abordadas as condições laborais dos trabalhadores do setor, com representantes reivindicando regularização semelhante à de qualquer prestador de serviços.
Conclusão
A discussão sobre a regulamentação da cannabis medicinal no Brasil revela um cenário complexo, onde avanços coexistem com desafios significativos. A necessidade de um marco regulatório claro e abrangente é evidente, assim como a importância da colaboração entre as associações, autoridades e profissionais da saúde para garantir que os pacientes tenham acesso seguro e eficaz a tratamentos baseados na planta.
