O Barco: Uma Reflexão sobre o Tráfico de Escravizados no Sesc Pompeia

4 Leitura mínima
© Paulo Pinto/Agência Brasil

A instalação O Barco, da artista portuguesa Grada Kilomba, é uma contundente denúncia das atrocidades do tráfico transatlântico de africanos escravizados. A obra, que pode ser visitada a partir de hoje no Sesc Pompeia, em São Paulo, ressalta a gravidade desse crime, reconhecido pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas como o mais hediondo da história da humanidade.

A História do Tráfico de Escravizados

Durante aproximadamente 400 anos, milhões de africanos foram sequestrados e vendidos como mercadorias em colônias europeias. Mesmo após a independência de algumas dessas nações, o comércio de seres humanos continuou a ser praticado. O Brasil se destacou como um dos principais destinos, recebendo mais de 4,8 milhões de escravizados que atravessaram o Oceano Atlântico em condições desumanas a bordo dos navios negreiros.

O Conceito por trás de O Barco

A obra de Kilomba provoca uma reflexão profunda ao questionar o que o fundo do oceano revelaria caso fosse esvaziado. A artista sugere que a água oculta trilhões de histórias de vidas perdidas, tanto no passado quanto no presente, enfatizando a repetição cíclica da violência. Ela destaca que os monumentos que glorificam a história colonial frequentemente ignoram as tragédias que aconteceram em seus porões.

A Estrutura da Instalação

O Barco é uma instalação escultórica e performática composta por 134 blocos de madeira queimada, dispostos em uma área de 220 metros quadrados. A disposição dos blocos forma a silhueta de uma grande embarcação, remetendo à arquitetura dos porões dos navios negreiros, onde milhões de africanos foram forçados a passar suas vidas em condições sub-humanas.

Referências e Inspirações

A obra é resultado de uma profunda pesquisa de Kilomba, que abrange botânica, história e as travessias transatlânticas. Ela também encontra inspiração na tragédia grega de Antígona, que questiona quem merece ser lembrado e celebrado. A artista destaca que a memória e a ritualização das histórias esquecidas são essenciais para a construção da identidade.

Uma Mensagem Atual

Kilomba ressalta que o oceano é um espaço de sepultamento não apenas das vidas perdidas durante a escravização, mas também de pessoas que, atualmente, enfrentam guerras, mudanças climáticas e migrações forçadas. A obra O Barco também se conecta a esses novos barcos que cruzam oceanos em busca de segurança, ecoando a tragédia histórica com um alerta sobre as crises contemporâneas.

Aspectos Poéticos da Instalação

Embora a instalação tenha sido adaptada para o espaço do Sesc Pompeia, ainda preserva 18 blocos centrais que ostentam um poema de Kilomba, gravado em várias línguas, incluindo iorubá e árabe. Os versos refletem a dualidade da memória e do esquecimento, enfatizando a ferida aberta pela história: 'Uma alma, uma memória. Uma memória, um esquecimento. Um esquecimento, uma ferida.'

Conclusão

A instalação O Barco é mais do que uma obra de arte; é um chamado à reflexão sobre as marcas deixadas pelo passado e suas repercussões no presente. Grada Kilomba utiliza sua arte para iluminar as narrativas esquecidas da escravidão e da opressão, convidando o público a confrontar uma história muitas vezes silenciada. A experiência no Sesc Pompeia promete ser um potente espaço de conscientização e diálogo sobre temas que ainda reverberam na sociedade contemporânea.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

Compartilhe este artigo