O Brasil enfrenta um cenário complexo em relação às internações em manicômios judiciários, com 1.655 pessoas ainda internadas em hospitais de custódia e tratamento psiquiátrico no primeiro semestre de 2025. Esses indivíduos, portadores de transtornos mentais, entraram em conflito com a lei, levantando questões sobre a adequação do sistema atual e as diretrizes estabelecidas pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
A Resolução 487 e a Realidade dos Manicômios Judiciários
A Resolução 487 do CNJ, publicada em 2023, estabelece o fechamento dos manicômios judiciários, buscando reformular o tratamento de pessoas consideradas inimputáveis por questões de saúde mental. Essa normativa visa garantir que o cuidado desses indivíduos não ocorra em instituições que, muitas vezes, se assemelham mais a prisões do que a ambientes de cura.
Desafios da Reforma Psiquiátrica
Completando 25 anos, a Lei da Reforma Psiquiátrica proíbe a manutenção de pessoas com transtornos mentais em instituições asilares, exceto em situações de crise. Apesar de suas boas intenções, sua implementação real ainda enfrenta barreiras significativas, uma vez que, na prática, muitos indivíduos ainda permanecem em condições inadequadas, como observa o pesquisador da Fiocruz, Paulo Amarante.
Controvérsias e Críticas à Resolução
A determinação do CNJ gerou polêmica, com críticas de entidades como a Associação Brasileira de Psiquiatria e a Associação Nacional dos Membros do Ministério Público, que questionam a viabilidade da resolução. Estados como Minas Gerais e Rio de Janeiro conseguiram liminares que permitem a continuidade das internações, justificando a falta de infraestrutura na rede pública para atender essa população.
Resultados Parciais e Avanços na Desinstitucionalização
Apesar das controvérsias, a juíza auxiliar do CNJ, Andréa Britto, destaca avanços significativos, com uma redução no número de internações, que caiu de 2.314 em 2023 para 1.655 em 2025. Seis estados já fecharam seus manicômios, incluindo Ceará e Alagoas, e todos os estados apresentaram planos para a implementação da política antimanicomial.
Condições Inadequadas e Violação de Direitos
Uma inspeção realizada pelo Conselho Federal de Psicologia revelou graves violações de direitos nos hospitais de custódia. Relatos de ex-internos, como o de Adilson Nogueira do Amaral, evidenciam a realidade cruel que muitos enfrentam, com experiências de isolamento e punições físicas. Essas condições têm gerado um clamor por mudanças efetivas e humanização no tratamento.
Caminhos para o Futuro
A luta pela desinstitucionalização vai além do fechamento de manicômios. É fundamental que haja um suporte adequado para reintegrar esses indivíduos à sociedade. Profissionais da área, como a defensora pública Ana Cristina Duarte, enfatizam a importância de estruturas de apoio que garantam uma transição segura e eficaz para os ex-internos.
Conclusão
O desafio de fechar os manicômios judiciários no Brasil é um reflexo de uma busca mais ampla por um sistema de saúde mental que respeite os direitos humanos e promova a recuperação. As recentes iniciativas e reduções de internações são passos positivos, mas é crucial que se continue a trabalhar por alternativas que priorizem o cuidado e a dignidade dos pacientes, assegurando que não fiquem à mercê de condições desumanas.
